domingo, 20 de setembro de 2009

Mulher de Fibra II

Parei na decisão que o meu pai tomou em manter a minha avó a tomar conta de mim.
O "casarão" do Sr. Dr. tinha uma casa dos caseiros, em parte do rés do chão. Foi onde os meus pais viveram até as obras de restauro de cima, estarem concluídas. As duas cozinhas eram por baixo uma da outra, partilhando a mesma chaminé. E este detalhe é de extrema importância! A casa dos caseiros tinha um pátio pequeno, nas traseiras da casa, com um portão de madeira verde a separar o quintal do casarão. Passando esse portão tinha-se acesso à escadaria de pedra, que levava à entrada da cozinha do "casarão".
Por esta altura já a menina tratava a senhora por AVÓ. O Sr. Dr. tinha a firme convicção de que todas as pessoas deviam ser respeitadas e tratadas com dignidade. Tinha que arranjar um título que fosse de respeito para a menina tratar a "ama" ocasional. Lembrou-se de avó que carrega, para além de respeito, carinho, mimos, afectos, doces, colo...se calhar um pouco da imagem que ele tinha das suas próprias avós. E assim nasceu a minha avó! Que se tornou "avó " de várias crianças, pois com as mudanças proporcionadas pelo Sr. Dr., a sua vida ficou diferente.
Quando se concluíram as obras de restauro do "casarão" (cerca de 20 anos depois do seu início!), a casa do caseiro ficou vazia, com a mudança da família par o 1º andar. O Sr. Dr. chamou a avó à sua biblioteca (onde recebia toda a gente! Foi das poucas divisões que se mantiveram funcionais ao longo dos 20 anos de restauro do "casarão".) e perguntou-lhe:
- Olhe lá, ó A. quanto é que está a pagar de renda na casa onde está?
- Mil escudos, Sr. Dr..
- A A. quer mudar para a casa pequenina?
- Ai, Sr. Dr. não tenho dinheiro para lhe pagar a renda!
- Fica a pagar o mesmo que está a pagar agora!
Se eu fechar os olhos consigo, sem esforço, ver os dois a ter esta conversa, tantas e tantas vezes contada pela minha avó, com as lágrimas nos olhos: o meu pai, na cabeceira da longa mesa de pau preto, rodeado de pilhas de livros e papeis manuscritos, com os óculos a escorregarem pelo nariz, as duas mãos assentes na mesa; e a minha avó, na outra ponta da mesa, de pé, com o seu longo cabelo, todo entrançado e enrolado em caracol, bata vestida (que usou a vida toda) e avental por cima.
A mudança foi rápida: a minha avó agarrou a oportunidade com ambas as mãos, fechou a taberna, mudou de casa e de vida! Esperava ela que, sem a taberna o vício do marido se fosse, mas não... Abrandou muito, mas a sua vergonha continuou. Na casa nova, com condições e espaço e com a referência de tomar conta da filha do Sr. Dr., rapidamente arranjou outros meninos para tomar conta, mais netos "emprestados".
A vida da menina passou a ser escada acima, escada abaixo, a comer bacalhau de primeira na casa de cima e tripas de vinha d'alhos, na cozinha de baixo!
Até aqui nada de extraordinário. A grande ligação afectiva à minha avó está para começar. O porquê de eu lhe chamar o meu "porto seguro" fica para outra vez.

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