Todos temos espaços, lugares cá dentro para ocupar. Com "ocupantes" transitórios ou definitivos, eles existem... mais ou menos como as gavetas: cheias de tralha ou com coisas importantes, mas nunca vazias. Alguém resiste a deixar uma gaveta vazia?! Se comprarmos um móvel novo, com gavetas, o que fazemos?! Ou já temos planos para o que lá vamos guardar ou tentamos arranjar tralha para enfiar na gavetas. Nunca ficam vazias por muito tempo...
Temos, portanto, tralha em algumas dessas gavetas, desses lugares. A sua função é apenas ocupar o espaço, para não estar vazio. Ninguém gosta de espaços, de lugares vazios!
Assim que arranjamos algo significativo, mais importante, substituímos a tralha: papéis, chaves velhas, isqueiros sem gás, cartões de visita, clips, berlindes, cenas que não nos servem para nada, mas que não temos coragem de deitar fora. Cenas que ainda achamos que nos vão servir, que nos vão dar jeito, que podem ser úteis ou coisas que nos fizeram sentir bem em algum momento. Só quando arranjamos outras coisas ou quando precisamos de espaço, é que lá vamos fazer uma limpeza. E aí, já não nos importamos de deitar a tralha fora, aliás, até nos interrogamos porque guardámos aquilo se não servia para nada... Afinal só lá estava para ocupar o espaço! Para não estar vazio!
Fazemos isto, temos esta noção, só quando temos algo diferente para lá por dentro... Até lá, deixamos a gaveta cheia de tralha e ainda pensamos que nos pode servir para alguma coisa. E vamos espreitar, de vez em quando, para ver se aproveitamos alguma coisa do que lá está dentro: abrimos a gaveta, revolvemos as coisas, tentamos dar-lhes um uso, encontrar-lhes um significado, um propósito e, mesmo que não encontremos, deixamos-las lá, à espera... nada temos para lá pôr, para ocupar aquele espaço, aquele lugar. Nada mais importante, mais significativo que nos faça pôr a tralha no lixo!
Eu sei, eu sei que há quem consiga ter gavetas livres de tralha, limpinhas, imaculadas, completamente vazias, mas nunca é por muito tempo...
Isto tudo porque eu abri a minha gaveta das tralhas!
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Histórias de uma gaveta
Era uma gaveta de básicos. Pretos, brancos e cremes. Ah, e um vermelho. Tudo liso, baço, confortável, prático. Até o vermelho. Material bom, que assentava bem, mas sem graça...
Não foi sempre assim. Já lá tinham morado vermelhos, azuis, rendas, transparências, pretos picantes, corpetes, brancos delicados, sedas... alguns bons apenas para tirar, sem nada de confortável! Uma gaveta cheia de histórias, de segredos, de sussurros, de risos, de prazer... Era uma gaveta divertida, bem disposta, com alguns toques de requinte e muito, muito colorida! A fugir um pouco para o excesso de vermelhos, é certo, mas isso não é defeito, pois não? Até diabinhos lá estavam guardados! Vermelhos, claro!
Um dia, num acto de desespero e loucura, foi tudo para o lixo! Tudo! Apenas lá ficaram as peças que encaixavam no prático, confortável, peças anónimas, sem direito a história ou elogio. Passou a ser uma gaveta como as outras, sem picante, sem segredos, sem "salero"... Por vezes, o olhar fugia-lhe para as peças atrevidas, picantes, divertidas. E as mãos tinham tanta vontade de as trazer e enfiar na gaveta! Mas ganhava o prático, sensaborão e confortável. Para quê gastar dinheiro?
Assim se manteve. Até que...
...timidamente, os olhos passaram a demorar-se ainda mais, as mãos a tocarem, a pegarem e a experimentarem. A imagem no espelho sabia-lhe tão bem... mas ainda não vinham para a gaveta!
Um dia, com pressa, com urgência, abriu a gaveta, olhou... e percebeu que aquela não podia ser a sua gaveta! Só básicos, algodão, sem cor, sem rendas, sem corpetes... Ai, quando se precisa de alguma coisa e não se tem... Então, sem poder perder tempo, agarrou (nem experimentou!), pagou, chegou a casa e vestiu. E despiu! Mais tarde, olhou para a gaveta e imaginou-a a ficar de novo colorida, com segredos, divertida, picante, atrevida, enfim tudo o que já tinha sido. Decidiu-se!
Quem lá vive agora? Básicos (que fazem sempre falta, mas básicos não tão básicos), vermelhos (lindos!), pretos já não tão discretos (mas ainda não muito picantes), azuis (claros e escuros), castanhos, estrelas (muitas estrelas) e mais vermelhos (lindooos!)! Faltam os corpetes, as histórias, as transparências, os segredos, as rendas, os sussurros, as sedas e o prazer...
A gaveta, essa está bem mais divertida! Porque não gastar dinheiro?! O espelho fica tão, mas tão satisfeito! Porque o que importa é a imagem no espelho!
Não foi sempre assim. Já lá tinham morado vermelhos, azuis, rendas, transparências, pretos picantes, corpetes, brancos delicados, sedas... alguns bons apenas para tirar, sem nada de confortável! Uma gaveta cheia de histórias, de segredos, de sussurros, de risos, de prazer... Era uma gaveta divertida, bem disposta, com alguns toques de requinte e muito, muito colorida! A fugir um pouco para o excesso de vermelhos, é certo, mas isso não é defeito, pois não? Até diabinhos lá estavam guardados! Vermelhos, claro!
Um dia, num acto de desespero e loucura, foi tudo para o lixo! Tudo! Apenas lá ficaram as peças que encaixavam no prático, confortável, peças anónimas, sem direito a história ou elogio. Passou a ser uma gaveta como as outras, sem picante, sem segredos, sem "salero"... Por vezes, o olhar fugia-lhe para as peças atrevidas, picantes, divertidas. E as mãos tinham tanta vontade de as trazer e enfiar na gaveta! Mas ganhava o prático, sensaborão e confortável. Para quê gastar dinheiro?
Assim se manteve. Até que...
...timidamente, os olhos passaram a demorar-se ainda mais, as mãos a tocarem, a pegarem e a experimentarem. A imagem no espelho sabia-lhe tão bem... mas ainda não vinham para a gaveta!
Um dia, com pressa, com urgência, abriu a gaveta, olhou... e percebeu que aquela não podia ser a sua gaveta! Só básicos, algodão, sem cor, sem rendas, sem corpetes... Ai, quando se precisa de alguma coisa e não se tem... Então, sem poder perder tempo, agarrou (nem experimentou!), pagou, chegou a casa e vestiu. E despiu! Mais tarde, olhou para a gaveta e imaginou-a a ficar de novo colorida, com segredos, divertida, picante, atrevida, enfim tudo o que já tinha sido. Decidiu-se!
Quem lá vive agora? Básicos (que fazem sempre falta, mas básicos não tão básicos), vermelhos (lindos!), pretos já não tão discretos (mas ainda não muito picantes), azuis (claros e escuros), castanhos, estrelas (muitas estrelas) e mais vermelhos (lindooos!)! Faltam os corpetes, as histórias, as transparências, os segredos, as rendas, os sussurros, as sedas e o prazer...
A gaveta, essa está bem mais divertida! Porque não gastar dinheiro?! O espelho fica tão, mas tão satisfeito! Porque o que importa é a imagem no espelho!
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